O que mais brilha lá em cima são as luzes dos aviões. Ainda assim, insisto em procurar nebulosas, a brilhantina da Via Láctea, o Caminho de Santiago. Passeio a cadela na noite citadina, com aquela sensação de coelho encandeado com os faróis dos carros.
No Alentejo, os coelhos e as pessoas sabem que a melhor pausa para avançar na noite é caminhar. Sim, disse bem, é a melhor pausa, quando o chão já não queima, sai-se à rua. Os que não sabem como diluir a exaustão dos corpos envelhecidos, penduram-se à janela, sentam-se à soleira da porta, nas esplanadas que usurpam o passeio, frente às tabernas, aos cafés. A aldeia agita-se de gente ávida de fresco, de um céu estrelado que não toste a pele, nem encadeia os olhos. Conheço-o, esse céu noturno, como a palma da minha mão. A parte de fora é negra e cintilante, a parte de dentro um mistério.
Um céu assim, só existe em lugares de tempo lento que caleja, onde a inquietação pragueja e a sesta é o petisco que reconforta sem matar a fome. Um céu que não embacia os olhos, não desfoca, onde ninguém se perde.
Na cidade o que mais brilha não são as estrelas, são os aviões. A cadela, que responde por Daisy, fareja os meus pensamentos. Olha-me com espanto, como se visse um coelho encandeado com os faróis dos carros. Volto para casa. Sei onde encontrar o Caminho de Santiago, a Via Láctea, o céu negro e cintilante do lado de fora. Sintonizo um canal de cinema, embarco numa viagem como quem apanha a carreira, no Alentejo. Cada bloco publicitário encandeia a sala e o sofá sem piedade.
NB
