Era ainda criança e recordo-me, perfeitamente, de gostar de observar os rituais de higiene do avô. Não tomava banho sem primeiro lavar, cuidadosamente, os pés num alguidar de esmalte branco com rebordo azul. O sabão branco e rosa e uma pequena pedra- pomes completavam o ritual. O melhor era o momento, em que de pé ao lavatório, frente a um espelho já manchado se preparava para fazer a barba. Sentava-me na fila da frente, na sanita, pronta a disputar o lugar com os outros netos. O pincel desfazia o sabão na pequena taça e depois o rosto ficava pincelado de branco, uma transformação que me arrancava o riso. O avô ganhava barbas brancas de espuma, que eram lentamente desfeitas pela lâmina. Às vezes, junto ao nariz, o sangue surgia pela traiçoeira lâmina. O avô arreliado pegava numa espécie de lápis branco e por magia secava o sangue. Um dia o desejo de imitação levou-me, a fazer a barba como o avô. A brincadeira correu mal e nem o lápis branco chegou para os cortes do meu desajeitamento. Depois do rosto limpo e tratado, dos ralhetes e ameaças, das lágrimas e das desculpas, eis que a avó chega e diz: – Minha menina, coitadinha, parece um Cristo! E foi um outro susto. Corri para o espelho, julgando ter agora frondosas barbas como Ele, o Cristo. Um susto.
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