“Até amanhã se Deus quiser.”
Despedia-se assim, com esta fé diluída num chá Bekunis que bebia antes de ir dormir. A cozinha limpa e arrumada, a mesa do conduto recheada. Na gaveta da mesa repousava um campo energético capaz de rivalizar com o Nirvana e que permitia abrir e fechar a gaveta sem descanso para arrelia da avó Felicidade.
 A parte mágica daquela cozinha era a pequena mesa de madeira retangular, com uma gaveta a toda a largura e profundidade suficiente para cumprir o propósito de guardar a comida. A mesa do conduto.
Lá dentro, não era difícil encontrar, um pratinho com meia dúzia de jaquinzinhos, chouriço cozido, toucinho frito, omelete de espigos ou uma marmita de alumínio com batatas fritas às rodelas com cebola e pimentos, um queijinho curado, enroladinho num pano com azeite, para que ficasse macio, e outras coisas que deixo por lembrar.
A mesa do conduto, da cozinha da avó Felicidade, foi certamente o protótipo das roulotes de petiscos.
Era vê-la, à gaveta, num abre e fecha impulsionado pela curiosidade, o hábito, a gulodice, o prazer de petiscar. Os croquetes de bacalhau sabiam muito melhor no descanso da gaveta. O avô Barradas preferia o toucinho frito, sempre do dia seguinte. Havia preferências para o gosto de cada freguês.
E na minha imaginação de criança, a gaveta do conduto parecia ter vida. Houve noites em que sonhava que me entalava os dedos como forma de castigo.
 A pequena mesa sobreviveu à avó, ao avô, ao passar do tempo. Está hoje, numa espécie de convalescença, num lugar que deixámos de frequentar. Não está esquecida. Tem nome próprio, seguido de apelido.
NB
A avó Felicidade com uma das minhas filhas junto à mesa do conduto
Autora

6 Comments

  1. Fico sem palabras
    Apenas olhando a foto retrocedendo no tempo ❤❤❤
    Prima Felicidade
    " como lhe chamávamos em casa "

  2. Que bom ter-lhe permitido este "encontro" com o passado e a minha querida avó Felicidade. Não sei a quem me dirijo, mas receba um beijinho.

  3. A comadre Felicidade -como toda a minha família a tratava. Que saudades!… Gente de outra *iNDOLO* – (Caráter; modo próprio e particular de ser) Obrigado Natália por estas belas *RECORDAÇÕES*, que me trazem à memória os muitos outros membros da Família, que tive a felicidade de conhecer em vida. O Ti João Barradas. a Ti Rosa, o compadre Manuel Barradas, a Comadre Maria (dos Outeiros), e todos os descendentes da Família. Continua a escrever Natália estas memórias; porque para nós: – (Os “Velhos) é BOM!… *OUTROS TEMPOS – OUTRAS GENTES*!!! – *ESCREVE- ME DE VAGAR* – Bj.

    • Natália Batista Responder

      Obrigada pelas palavras de carinho. Gosto muito de o ter aqui. Beijinhos

  4. Tambem tenho minhas memórias assim ao ler foi como se o tempo voltar-se para trás. A mesa do conduto esteve na casa das minhas avós os petiscos os sabores ••• enfim o passado tão presente beijinho

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