Há uma mercearia na minha vida. Prateleiras cheias de cor, de fazer e desfazer porque escrever é tão bonito. Encontro tudo o que só existe ali. Entram e saem fregueses, vizinhos, conterrâneos, amigos, os meninos da escola na hora do lanche. Há horas em que a loja se enche de gente, coincide com a chegada do pão quente, dos bolos da padaria. Todos têm pressa. A menina Glória conhece as demandas e sabe como criar entendimento. A mesma habilidade com que trava os que se interessam mais pela vida dos outros do que pela própria. Porque ali conversa-se sem fazer vincos.
Há uma mercearia na minha vida tão fácil de percorrer. Deus distraiu-se e nada disto já existe, exceto na memória dos outros.
Queria o bom, o mau e o péssimo deste lugar. Porque é preciso deixar de ter para ser avassaladora a recordação. É uma verdade que temos que assumir.
Não quero desabituar-me de a frequentar na  memória, nas poucas fotos que disponho e no coração onde há uma cópia de segurança.
Olho e há tanta coisa de que me não dei conta. A menina cresceu.

NB

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