Recordaste  dos autos de Gil Vicente?  Peço-te que participes deste exercício do faz de conta. Imagina, não uma barca, mas um banco de jardim. É num banco de jardim que nos encontramos. Incomodam-se alguns pardais e pouco mais.


 Alguém  – Nós, os parvos, assistimos à desfaçatez dos que se julgam espertos, com um sentimento de repulsa que nos torna incapazes de ceder ao facilitismo da cunha, da amizade bafejada no alcance de melhores contactos profissionais e sociais, que se engrandece de ambição desmedida.

(silêncio)

Nós, os parvos, desempenhamos na perfeição o papel de parvos, quando nos lançam o isco na ponta do anzol. É da nossa natureza, da educação, dos princípios incutidos, sinceramente é o que me ocorre dizer, vem sempre de dentro.  É algo, que se situa abaixo da pele, como se o mérito próprio fizesse parte da epiderme.

(os pássaros cantam e mudam de árvore num voo rasante)

Nós, os parvos, somos como uma zona de paisagem protegida que todos defendem, mas que ninguém quer para si. Não rende.
E tocam-nos coisas de nada como a falta de gratidão, o oportunismo, a deslealdade, o desapego.

Outro ainda – Mas sabes, nos tempos que correm, fazer juízos de valor é provavelmente uma das formas menos recomendável de despender tempo e energia anímica. Todos os dias se torna óbvio que os tempos são de profunda e acelerada mudança. É importante perceber o que somos, de que somos feitos muito antes de nos determos a analisar o que nos rodeia. Tropeçar no próprio pé, também nos faz cair.

Alguém – Lá estás tu! Não lixes a conversa.

(Os pássaros levantam voo)”


N.B.

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