Oferecia-lhe livros para se desculpar do que os fazia entrar em contramão. Oferecia-lhe livros para amenizar o que não sabia dizer, o que só saía fora do tom. Oferecia-lhe livros por amor, por saber que a tornava, estranhamente, feliz. Acumulavam-se pela casa, onde os petiscava, expressão que ela usava com graça. Petiscava-os com avidez vários ao mesmo tempo, como se de uma guloseima se tratasse. Sabia sempre em que página ficara na leitura. Imaginava o que não lia, o que mais tarde descobria estar lá.
Quando terminava um livro ficava algum tempo numa espécie de jejum, abstendo-se de ler.
Depois voltava. Voltava ao petisco, à leitura apaixonada, às palavras e às ideias que mastigava, que digeria por dentro.
Só ele conhecia os tais hábitos, tais manias. Só a ele confiara o segredo – nascera sem pontuação. Transportava excessos que a pontuação resolve, sem cair para dentro. Aprendeu com os livros e aprendeu a alternar: juntos / lado a lado. Uma espécie de matriz binária, que lhe ensinou como tudo pode ser de outra maneira.
Percebes o que quero dizer? E com serenidade e entusiasmo na voz, falava sobre os livros:
Estão cheios de pormenores, de amor, de vida, das coisas que se ligam umas às outras como a existência. Ele sorria, porque ela o fazia sorrir. E pensava, num lamento: O teu mundo é maior que o meu.
NB
** Imagem Pinterest
