Prolongam-se amores de Verão. Faz-se outubro de um vinho doce que as parras amadureceram, assim. Faz-se outono de marés vivas, de ventos que empurram o fogo, de histórias fora da época.
Prolongam-se amores de Verão em esplanadas de gente ávida de bebidas frescas e pele bronzeada até mais não.
Prolonga-se o desespero nas pastagens, no regadio, nas barragens esventradas de águas evaporadas. São cíclicas estas coisas, são números, estatísticas, registos da meteorologia, da memória da mãe, do pai e da tia que até rezas fizeram num lugar, onde tantos nasceram e onde hoje ninguém habita.
O que é feito do que foi, do que era, do que nos dava sustento? Não venham vender o sol e o turismo, os prémios para melhor destino. Falta água, sobra azul. Falta orvalho, sobra o braseiro da terra.
Não me alegra o verão fora de tempo, mesmo se prolonga amores e peles morenas. Não consigo deixar de ouvir o ruído da terra a abrir brechas, onde antes havia pastagem. Recordo as preocupações numa casa, que já não habito. O pai, o vizinho, o amigo a fazer contas aos fardos de feno para alimentar o gado. Poucos sabem o que custa tanto verão, mesmo quando a conta do supermercado aumenta.
O gado rumina sol, enquanto alguns se preocupam com o futuro que encolhe, logo ali à frente. Vivemos num século, em que a esperança de vida aumentou bastante nos países desenvolvidos, contudo não sabemos manejar esta coisa da sustentabilidade. Outros houve que morriam cedo e criavam reflexos de sobrevivência. Acreditavam em Deus e temiam as forças da Natureza. Não utilizavam estrangeirismos, nem se atreviam a olhar para tudo isto como um enorme playground. Uns a viver na Uptown e outros na Downtown.
Realidades feitas de plástico, que se banalizaram como este tempo fora de tempo.
N.B.
** Foto de Alexstoddard

2 Comments
As palavras saem-te como “malha de croché ” e constroem textos magníficos.
Adoro tricotar:)