A vida académica foi um mundo fascinante de coisas novas. Sonhei com ele, sem ter noção do que significava. Aconteceu-me, com receios e deslumbramento. Sobretudo, quando assumi uma participação ativa na Associação de Estudantes e me envolvi na realização da 1ª Semana da Cultura Espanhola, da Faculdade de Letras de Lisboa. Um programa cultural e académico que no ano inaugural apostou no teatro castelhano, através das muitas peças encenadas, em Lisboa. Reuniram-se os cartazes das peças de teatro, levadas a cena em diversos teatros da capital. O Teatro Ibérico, em Xabregas, foi embaixador da Semana da Cultura Espanhola. O contacto privilegiado nos bastidores com os atores, muitas esperas feitas de café preencheram estes dias.
Envolvi-me por inteiro como é habitual. Ruborizei e atrapalhei-me com o ator, Mário Viegas, no convite que lhe dirigi no Teatro São Luís. Aceitou. Exigi-me e exigi dos outros, acreditei que o sucesso da organização dependia de mim. Excedi-me em entusiasmo, em trabalho, em noites sem dormir. Nasceu-me uma paixão pela dramaturgia castelhana. Adoeci antes de terminar o evento. Exaustão, a que alguns chamaram de esgotamento. Aconteceu. Aconteceu-me, não sei como. Tenho plena memória destes momentos frenéticos. Sei de cor versos de García Lorca, recitados magistralmente pelo fundador e encenador do Teatro Ibérico, Xosé Blanco Gil, que me falou das peças de Valle- Incián e de Gil Vicente, levadas a cena em Xabregas. Xosé Blanco Gil que levou o anfiteatro, da Faculdade de Letras de Lisboa, ao arrepio com a encenação de poemas de Frederico García Lorca.
Guardo na minha fototeca cerebral, dos anos 90, as cores dos cartazes, os nomes das peças de Calderón de La Barca, encenadas por Blanco Gil. Sei a que cheira o cansaço extremo. Sei que não há nada que precise de mim para existir, para continuar. Isso não me enche de inutilidade, não refreia a vontade de saber, a gratidão de viver.
A vida académica trouxe-me tantas aprendizagens.
São poucos os corredores de fundo. Sofrem de desgaste rápido. Entre duas balizas aparentemente iguais, entre o limite e a superação, escolho a arte dos passos, escolho os milésimos de segundos que medeiam a oportunidade. Valorizo e necessito do contributo dos outros. O golo é só o fim. Na faculdade aprendi a desfrutar do processo, a apreciar as imagens paradas e a não sofrer com a ideia do sucesso. Afinal o que é isso? O que é o sucesso?
E continuo a falar muitas vezes de mim com propriedade, entenda-se. Porque acredito, que mesmo quando falamos dos outros continuamos a falar de nós próprios.
N.B.

Notas breves:
*O Professor Doutor Vitor Jabouille presidia ao Conselho Diretivo da Faculdade de Letras de Lisboa.
* Ópio, a revista da Associação de Estudantes, em 1991/92
Este recuperar de memórias é dedicado a todos os que participaram neste evento. Em particular, à Professora Doutora Ana Paula Mourão, que me ensinou a amar a literatura, em particular a poesia. E aos colegas que perdi da mão com o passar dos anos, Isabel Gaspar, Luísa Moreira, Isabel Garcez, Teresa Guerreiro, as “Meninas da A. E.”
E andávamos nisto:

5 Comments
Simplesmente magnífico….❤❤❤
Obrigada Rosário. Bj
A vida académica é assim:) Bjs
Bom dia
Sou um bibliófilo colecionador de revistas de poesia, artes, ensaio e, da vossa ÓPIO, pouco sei . Tenho apenas um nº 3.
Pode ajudar-me a saber quantos números foram editados? Tem alguns que queira vender?
Obrigado.
Fernando Lima
Fernando Lima já lhe respondi por mail. Obrigada.