Um dia acordou senil. O gato sentado à mesa comia cereais com a colher. O canário cantava freneticamente no chuveiro.
A televisão oferecia a banda sonora a esta cena surreal exibindo umas bailarinas seminuas, um cantor pimba, um Portugal de feiras e festas, que o gato acompanhava de boca cheia.
Ah, maravilha! Esqueceu-se de todas as tristezas, perdeu a memória. Era a transgressão total. E o trabalho que lhe ia dar abrir a gaiola e baloiçar lá dentro.

No dia em que nada parecia o que era, viu com certa satisfação como as aparências são mais que uma diferença de gostos, são uma obrigação sagrada que se aprende de forma distinta em cada casa. E é por isso, que os aviões levantam voo cheios de gente, cheios de almas enquanto os pássaros, de tão livres,  se convertem em aves domésticas, engaioladas.

Acordou senil, fez uma pausa na vida. Durante um dia não existiu no entendimento dos outros. Bebeu montanhas, fumou planaltos e alimentou-se da espessura dos hábitos que guardava nos cantos da casa. Divertiu-se tanto. Fez promessas que mais tarde a embaraçaram, não porque as tivesse esquecido mas porque indignaram a gente centenária que a olhava com prudência rançosa.

Um dia teve a decência de se deixar ficar senil, ainda que por pouco tempo. Foi uma experiência a não repetir, não encontrou uma viva alma com sentido de humor, à exceção dos animais supra citados.

N.B.

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