Passa a ferro junto à janela. Engoma as roupas da casa e as do corpo, dos diferentes tamanhos e formas que vestem cada um. Estica, alinha, alisa, vira frente e avesso, entrega-as ao calor do ferro, ao vapor como um peeling que as põe como novas. Movimentos rápidos, mecanizados e o pensamento veloz que não descura o perigo próximo à pele.  Simultaneamente, viaja para longe onde se perde a espessura dos hábitos e das rotinas. Cada peça de roupa faz a diferença na rampa de lançamento do que não se vê, consoante se trate de um lençol, de uma camisa ou de umas calças.
Nada disto resulta do acto de engomar, em si. Nem tão pouco do vapor libertado pelo ferro, que possa descolar ideias agarradas à retina. Acontece. Pequenas histórias envoltas no vapor, sem nunca se queimar.
Junto à janela, subitamente, tudo fica perto. A América, Itália, Amesterdão, Dublin, Bilbau ou o Alentejo, até mesmo aquela rua e aquela casa no bairro de Alvalade.
Tem um trabalho que poucos conhecem, que poucos entendem. Exige-lhe a atenção de um pastor para com o rebanho. Exige-lhe a contemplação e o amor na escolha das palavras. E sabe bem, como é difícil viver desta dedicação. Não pensa nisso, enquanto engoma como quem escreve,  junto à janela.

NB

 

 

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