A cozinha do restaurante fervilhava no habitual rebuliço. Não tardava e os primeiros clientes começavam a pedir as iguarias do Chef, especialmente selecionadas para o evento, Porto Restaurants week.
No ar misturavam-se aromas variados e um stress miudinho ajudava à confeção e criatividade de cada prato. O que escapava ao Chef era o enamoramento muito pouco convencional entre uma Francesinha e um Queque. Mas para isso era preciso outro tipo de competências, a quem trabalhava naquela cozinha, como ouvir a linguagem dos alimentos.

 

Era sem dúvida um Queque diferente, isso percebia-se. Dourado, com uma performance irrepreensível de onde sobressaía, com a discrição pretendida, um tom magenta de framboesa, um violeta darke mirtilo. O Queque apresentava-se vaidoso na bancada do pasteleiro. Lá de cima, observava com desdém o preparar de ingredientes que se perfilavam na mise en place, para os vários pratos que o restaurante selecionara, na edição do Porto Restaurants week.

O entusiasmo do Queque era tal, que não se coibia de desafiar as demais sobremesas a participar num concurso de apostas, em que já se via vencedor.

O Chefe de pastelaria escolheu-me entre as melhores receitas, dizia. Eu dignifico a pastelaria, sou obviamente um produto clássico versátil, capaz de rivalizar com todo e qualquer boleco confitado, recheado, coberto de uma qualquer ganache, pasta de amêndoa ou chantilly.

Na bancada contrária, uma Francesinha, alta, robusta, bem torneada, daquelas que seguimos com os olhos quando passam à nossa frente, não se conteve e disse com pronúncia do Norte:

–  Oube lá, òh Queque, sabes do que tás a participar? Isto não é um concurso, é um ebento com fins comerciais, sociais e solidários. Se pensas que te bens gabar, bai-te embora. Houbesse títulos nesta cozinha e a rainha era a Francesinha.

Credo! – disse o Bacalhau confitado, em Cama de Puré de Grão. Jesus, para o que eu havia de estar guardado, continuou indignado.

O Queque até arrepiou.
Olha esta! Então uma Francesinha a querer pôr o Queque no lugar? – pensou com uma tal irritação, que transpirava gordura sobre o papel vegetal. Mas respirou fundo, ignorou o Bacalhau e ao olhar aquele manto aveludado de queijo derretido, com que se apresentava a bela Francesinha, balbuciou com simpatia:

Sabes, tenho de concordar contigo, se há alguma rainha nesta cozinha, és tu. Francesinha.

N.B.

Excerto de um conto a  aguardar a mistura de outros ingredientes, para depois gratinar e empratar.
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