Sofrem do mesmo mal, são ambos ansiosos. Esperam demasiado de si, dos outros, da vida. Vivem em alta rotação, gostam de imaginar coisas que não existem e que desejam fazer acontecer. Esta aparente ação inesgotável faz deles workaholics, solicitadores frenéticos do sempre mais. Mas há um código de conduta estabelecido com algum rigor. Não sabem livrar-se disso, do rigor.
Em casa vestem a preguiça doméstica, assumem o medo de falhar. Sofrem do que é normal, fome, sede e a falta que eu te faço, no dizer de um, ou no olhar do outro.
Merecem-se em tudo, na vida de pouca partilha e na cama onde se encontram. A cama é uma espécie de lugar de impacto, onde se reflete o tamanho dos dias. Há um ritual ao deitar que poucos imaginariam. Leem-se histórias em voz alta numa degustação que se traduz numa experiência de outras vidas, de coisas que se esquecem de viver. Devoram-se livros com as mãos, com os olhos, com a boca, com o corpo todo. Misturam-se na cama, os planos da narrativa e os planos entusiásticos do que lhes é permitido imaginar, do que lhes é possível fazer com o que fica destas histórias.
Incansavelmente, neste ritual de ilusão e ordem faz-se a acalmia dos ansiosos. Uma forma legitimada por ambos, de amor, de sexo, de cumplicidade, em que um corpo se apaga no outro corpo.
Fica escuro e o sono divide-se em dois.
N.B.
*Imagem Pinterest
