Sinto pena por algumas coisas que não aconteceram. Provoca-me uma sensação de despedida por algo que não vivi, como um desejo interrompido, um quase lugar. Isto só acontece porque não aconteceu. Que paradoxo. Guardo o que idealizei, o sonho com a chancela da imaginação.
Já fui feliz de muitas maneiras. Já sofri por coisas que nunca aconteceram, vivi com alegrias que não valorizei e registo o sentimento de pena por coisas que não aconteceram. Não percebo nada de futebol, mas a comparação que me ocorre é a mesma de quando a bola, num livre ou num canto, é lançada em viés e rebenta brutalmente no guarda redes, que não a defende, apenas para com o corpo o que vem à procura de lugar. Assim fico, por instantes. Depois crescem ideias variadas, gestos repetidos, medos escondidos e uma imensa fé de que o melhor está por vir.
Hoje, acordei frágil dos sonhos e endureci à medida que as horas me serviram o dia. Não terei sido a única. Não é este o meu engano. O meu engano é outro. É o desacerto entre o que sou e o que desejo. Dias haverá como este. Dias em que quase vos deixo sair do meu coração e até as coisas que não acontecem me salvar da rotina. Imagino a mesa de Natal onde estão todos. Imagino Deus a quem pedimos tanto. Talvez seja o responsável pelas coisas que não acontecem, talvez tenha que lhe agradecer por isso. Quando não há respostas, prefiro imaginar e acreditar que é muito cedo e isto não é o fim.
N.B.
**Aviso ao leitor: este não é um texto triste. Digamos que faz parte da preparação para o Advento, para o que há de vir.
