Cheguei ontem a dezembro.

Já contava com o frio, que se fez Inverno. Já contava com a pouca luz, que os dias consomem-se como lamparinas de azeite aos pés dos Santos. Contra todas as promessas feitas em anos anteriores, nada está pronto atempadamente. Os sprints de dezembro são inevitáveis. Também contava com eles. E nisto, cresce nas ruas um cansaço e uma exaltação a que é difícil fugir. São as compras, os almoços e jantares, as mensagens que temos de agradecer, enviar, não esquecer. E as listas, palavra quase sagrada, desde que se cumpram

Cheguei ontem a dezembro.

Venho a contar com os números. Não há dezembro sem números. Atiram-nos para a realidade, enquanto tentamos agarrar-nos à magia do Natal. Há estatísticas para tudo. Parecem feras domesticadas a exibirem as assimetrias do quotidiano. O mundo dos números, das construções matemáticas sem afetos, dão-nos conta dos valores levantados nos terminais multibanco, da ocupação hoteleira para o Fim de Ano, do desemprego, do endividamento das famílias, do PIB, do número de pessoas que farão a ceia de Natal na sopa dos pobres, dos refugiados e muito mais.

Cheguei ontem a dezembro.

E de repente, apetece-me seguir viagem direitinha a janeiro. Porque há coisas irremediáveis que tornam desolador dezembro. Cheguei preparada para todos os assuntos, todos os trabalhos, tudo. Menos para a tua ausência. dezembro é o mês do teu aniversário. Não envelheces mais. Envelheço eu, enquanto aprendo a viver com o que não está ao meu alcance.

Cheguei a dezembro e só me ocorrem perguntas:

Como se faz para voltar para casa?

O que querias que eu fosse?

Vamos ser claros. Nem eu te escrevo, nem tu me respondes. É dezembro, cheguei ontem!

N.B.

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2 Comments

  1. Raquel Lameirão Responder

    Lindo e sentido!!
    Pois é, no Céu (seja lá o que isso for), não envelhecemos…….
    Também sinto isso, também chegar hoje a Dezembro e partir para Janeiro ( ou talvez não,….porque logo chega Fevereiro)…..
    Posto isto, seja Dezembro…ou Janeiro….Agosto ou qualquer outro mês, temos sempre uma ambivalência…..uma que nos prende …e uma que nos repele….

    Um beijinho e obrigada….gostei muito e refleti….❤

    • Natália Batista Responder

      Obrigada Raquel pelo comentário. Dezembro tem essa ambivalência como diz, é um mês da família e quando há lugares na mesa que não mais se preencherão não é possível não doer. Será sempre assim, no coração, no silêncio intimo e depois seguimos na dedicação aos que estão, no frenesim das festas e das luzes. Dezembro é um mês de sentimentos contraditórios e às vezes só queremos que passe rápido. Um beijo especial para si. Sei que partilhamos este sentir.

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