Só eu sei, que há dias em que tenho excesso de peso. O peso das saudades, dos rostos e vozes que me habitam numa névoa matinal. O peso do que ficou por fazer. Pesa nos ombros pequenas coisas do quotidiano, que me gastam a paciência. E as mãos conhecedoras disto tudo, fazem de fiel da balança e ensaiam gestos delicados no cabelo. Os dedos, bem comportados, enrolam madeixas como se ajeitassem sentimentos. Um gesto simples, desassombrado, que desfaz lentamente o excesso de peso. Dias em que não enxergo um banco no caminho,  em que tudo se confunde num cansaço alimentado a café.
É tudo líquido, as horas, os dias, a ideia original. Repete-se o gesto de enrolar o cabelo. Aos poucos desaparece o negrume, o peso. Encontro o banco, o descanso. Encosto-me ao silêncio e continuo a enrolar pequenas madeixas de cabelo, como quem encontra a estratégia certa para dominar uma alcateia de lobos.

N.B.

 

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