Andar em ziguezague também é andar. E ao pé coxinho ou sentado a matutar. Matutar é um verbo do caraças, leva-nos longe, muito longe. Felizmente por pouco tempo, a realidade atravessa-se no caminho. Uma espécie de norma indispensável à sobrevivência quotidiana – “Não matutarás de forma prolongada”.
Aconteceu neste instante, levava ele minutos largos de matutar ou seriam quilômetros percorridos a pé, em modo automático? A música em altos berros vinda de um carro todo quitado, trouxe-o para baixo, onde o silêncio tem som e retroactivos.
Num plano médio como nos filmes, vêem-se dois cães eriçados a medir forças, por entre os donos impreparados. Depois, numa espécie de Close-Up, como se a câmara focasse de perto a passadeira de peões, o homem faz-se à passadeira apressado com o ladrar danado dos cães, nos ouvidos. É quando dá de caras com outra cena, coisa rara, coisa linda. Meio corpo debruçado na janela do carro, do lado do pendura. Meio corpo escondido, apenas as pernas e o rabo numa geometria de volume, que não se aprende nos manuais escolares. Pede aos Santos que assim fique, não vá o restante corpo destoar.
E foi assim, escassos metros e esfumou-se o matutar.
Ele há coisas que é para levar a sério. Não nos podemos demorar muito nem em cima, a matutar a cabeça, nem em baixo a adorar o próprio umbigo. Sempre desconfiei de quem vive neste vaivém.
Este que matutava sabia disso, tal como sabia que para viver há que encontrar outros, há que sair dos pátios da imaginação e pisar a realidade.
NB
