No dia em que a mãe morreu a roupa ficou por lavar. No chão da cozinha, frente à máquina, dois pequenos montes de roupa, uma branca e outra de cor, esquecidos. No dia em que a mãe morreu não comi nem bebi, fiquei como uma espécie de vegetal separado da raiz. Vieram os vizinhos, a família, os amigos, os conhecidos, em mim havia pouco espaço para além do corpo dela, preparado para que se pudesse ver, para que nos pudéssemos despedir. Uma virgem de manto bordado, abrigava-lhe a cabeça no topo da urna. Reconheci-a de um calendário que a mãe guardava por considerar a imagem tão bela. Como fora ali parar a virgem do calendário? As perguntas sucediam-se na minha cabeça e só eu as ouvia. Não dormi, mas deitei-me para ficar a sós, era a única maneira de estar sozinha, com ela, comigo, juntas.
Depois, quando a vida nos obrigou a abrir a porta da casa onde a mãe já não estava, desesperei-me. Fui ao frigorífico e comi todos os restos de comida que ela cozinhara na véspera. Não com a avidez da fome, da gula ou algo que se pareça. Tão somente, com a ilusão de recuperar o sabor da última sopa feita pela mãe e tudo o mais que havia no frigorífico. Foi contrário o efeito. Um sal de lágrimas quase me fez vomitar e depois procurei a virgem do calendário, para lhe dizer que não gosto de coincidências e não se mora, ao mesmo tempo,  em dois lugares. Depois,  guardei-a e ao calendário, por respeito à mãe. Escondi-a no fundo da gaveta dos lençóis, numa espécie de benfeitoria contrária ao meu pensar.
Sentei-me na cama da mãe, tão cheia de espaço. Fiz contas ao meu rosário, fiz promessas que não cumpri, aceitei coisas que à partida negaria.
No dia em que me enchi de luto, muitos outras famílias experimentaram o mesmo.
No dia em que a mãe morreu, parti e regressei outra mulher e o mundo continua sem saber quem eu sou, quem ela era. Isso só me interessa a mim.

NB

in,” Coisas no Fundo do Alçapão”, caderno que se  preenche de inéditos, da escrevente deste blog.

 

** Gustav Klimt

 

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