Aos dezasseis anos sonhava ser como a Cindy Lauper. Que mal havia em ser a Cindy Lauper?- perguntava-me. O meu irmão adorava o Ayrton Senna, uma amiga queria ser uma das três beldades da série Anjos de Charlie. Ao que parece, o meu gosto era o mais extravagante. A mãe tratou de me explicar que não podemos ser os outros, que a cada um cabe uma vida única, que poderia ser tudo menos a Cindy Lauper. O papel já fora atribuído.
Ainda hoje, não entendo muito bem isto. Tenho uma enorme fé na capacidade utópica das pessoas. Acredito que até ao fim da vida, tudo é um rebuliço de processos que nos tornam serviçais ou rebeldes, criativos ou meros receptores do que acontece à nossa volta. Não me esqueço dos lugares que deixei de frequentar, das pessoas que me são importantes e mesmo longe, estão sempre em mim.
Não canto. Não sou a Cindy Lauper. No entanto, dou por mim a aclarar a voz da escrita, como se me preparasse para dar um concerto.
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