Um dia zangaram-se todos. Acabou-se o crochet de ideias à volta da mesa. Perdeu-se o respeito dentro da casa.
Um dia zangaram-se. Enrolou-se o respeito num pano com nódoas, atirado para o fundo da caixa do pão. Partiram-se as agulhas de crochet de tão usadas como espadas, no esgrimir irado de razões.
As linhas presas aos novelos, esticadas e repuxadas, gastas, algumas presas por um fio, ficaram penduradas à luz do candeeiro, que entretanto, se apagou na casa.
Inauguraram-se assoalhadas, cada um ocupou a sua, dentro da casa vazia.
De noite, ouvia-se o barulho das agulhas de um crochet solitário, e era só.
Zangaram-se todos. Assoalhadas zangadas numa casa fria.
Sem se perceber como, pelo algeroz desceu um gato vadio que ninguém queria. Esfomeado foi à caixa do pão e espalhou sobre a mesa o respeito amarrotado, que de nada lhe servia. E miou esfomeado. Abriram-se, de supetão, as portas das assoalhadas. O gato esfomeado, deitado sobre o respeito amarrotado, fez tecer malhas soltas de crochet. Um gato vadio, sem dono nem casa. O momento certo para abandonar a história, enquanto as portas estão abertas, o espanto sobre a mesa e fios de espairecer são tecidos à vez, nas agulhas de crochet.
NB
** imagem Pinterest
