Mágoas não fazem bem à pele, nem às articulações, aos ossos, ou à carteira. Despertam vícios difíceis de sustentar, arrefecem o coração, provocam tristeza, fome compulsiva, às vezes asco alimentar. Um número infindável de coisas más.
Falava disto, quando a minha filha mais nova se meteu na conversa. Tentei ser pedagógica. Aproveitei que preparava o jantar e apontei para o frango na bancada da cozinha. Separei uma das pernas da ave e com cuidado fui dissecando-a. Sabia que a coxa tinha uma contusão junto ao osso. Apontei para o sangue pisado que impregnava os tecidos junto ao osso. Expliquei que aquilo era uma mágoa física. As psicológicas não se veem e muitas vezes são difíceis de curar.
Ao jantar a minha filha declarou não ter apetite. Depois de alguma insistência fez saber que não comeria um frango com mágoas. Percebi que exagerara na explicação e decidi fazer como no futebol. Pedi aos árbitros adjuntos que estavam à mesa, que me ajudassem a resolver a situação. Não serviu de muito.
O meu excesso de loquacidade foi pouco abonatório para o jantar. Frango com mágoas. Nem a mim soube bem.
N.B.
