Deu-nos Deus um Verão continuado. Um sol que teima em lamber o horizonte, até ao último segundo. Um cheiro a seca, a terra desnutrida, tórrida, estéril. Um Verão continuado, mesmo depois do acerto da hora.
Quer-se um céu com nuvens, não das estéreis mas das outras, grávidas de chuva. Quer-se água a correr nas valetas, a engrossar riachos e rios, a encher charcas e barragens. Quer-se uso para o impermeável, para o guarda-chuva, a parka tão bonitinha, as galochas de tigresa, tanta moda em stand-by.
Terá sido Dédalo a amaldiçoar-nos com este Verão que não acaba? Consultei as Parcas, a Sibila e até o Borda d´Água. As primeiras apontam o Homem como responsável do seu próprio destino. A segunda refere a Natureza, força geradora do caos e da mudança. Quanto ao Borda D´Água insiste na necessidade de tirar partido das luas e do tempo correto para deitar as sementes à terra. Insiste, no respeito pelo tempo certo.
O Verão continuado não faz parte do tempo certo. Talvez, porque este é o tempo de nos pormos à prova, de nos enfrentarmos, de proteger o ambiente. Uma demanda aventurosa como a das Parcas, da Sibila, a de Dédalo. Um destino em aberto. Um caminho pejado de afirmações ignorantes e castradoras, de advertências, de estudos e incertezas. A fortuna da Terra nas nossas mãos.

N.B.

**Ponte Vasco da Gama, Lisboa. Foto pinterest.

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