Dá-me um comprimido dessa gaveta. Dá-me dois para garantir o alívio do corpo e da cabeça. Paguei para cortar parte das costelas flutuantes para adelgaçar a cintura. Aumentei o peito, as maçãs do rosto, os lábios. Tripliquei as pestanas e pus unhas de gata, alisei e platinei o cabelo. Não me reconheço no espelho.
Dá-me um whisky sem gelo e não me maces com conselhos. Comprei um corpo novo, onde não caibo.
Dá-me mais um comprimido, da caixa amarela. É para a inquietação, para a boca seca, para a falta de sexo, para destilar raivas e acalmar ilusões enganadoras. Fecha a janela, corre o cortinado. Apaga o dia e não me faças diagnósticos de uma neurose que se auto alimenta. O corpo renovado encalhou-me nesta tristeza de mim. É isso.
Dá-me outro comprimido, preciso de mudar de ideias, de apetências, de gostos. Vende-se disso, avulso por aí?
Deita-te ao meu lado. Sou uma fraude que se emociona e preciso tanto da expectativa que me desperta o teu abraço.
Sabes que tem um alto valor energético, em mim?
É costume ser-se triste, como nós somos?
N.B.
In ” Deus criou a mulher e o Diabo inventou os saltos altos”, o meu caderno não editado.
