Quando nos enchemos de lutos e a voz fica presa na garganta, há que elevar o tórax para que o coração bata sem freio, para que o peito tatuado de coragem, de garra, de pátria, respire.
Quando nos enchemos de lutos, da dor desprende-se coragem, nascem gadanhas onde antes havia braços, rebentam raízes das pernas que se espalham pela terra queimada num sinal inequívoco de pertença, de vida. Porque a morte é um despertador que não tocou em todas as casas e que alguns acreditam tê-lo silenciado milagrosamente.
O dia seguinte é um carrasco que serve um quotidiano de sobrevivência, a que se seguirão outros de trabalho, de renovação e orgulho.
Perde-se e ganha-se fé, reza-se sem o formalismo das escrituras, das orações que o Senhor ensinou, reza-se conversando demoradamente com Aquele a quem se entrega a vida, quando a morte parece certa. É preciso assegurar que ninguém desiste, que ninguém se senta sozinho à mesa.
Quando nos enchemos de lutos tomamos as nossas dores e as alheias. Percebemos que afinal, viver é o contrário do que fazemos todos os dias presos no nosso mundo, nas merdices do costume.
Os que hoje regressamos a casa, à normalidade, à mesa posta, à cama feita, ao cão, ao gato e assistimos ao negro da vida pelo ecrã da televisão, estremecemos. Das nossas mãos espera-se engenho, das nossas mentes iniciativa, ideias solidárias, voluntariado ativo. Ser capaz de ir, de participar, de fazer.
O sofrimento é um terreno arável, de onde se podem nascer as melhores colheitas.
O que posso fazer? Como se faz florir?
N.B.
