Ouço dizer que já não há Outono. Talvez esteja apenas atrasado, porque ficou a descansar na sobrecama da casa da minha avó. No sótão, como vulgarmente se designa. Lá, o Outono, tem uma cama de papel pardo preparada pela avó Felicidade, onde lado a lado se perfilam maçãs Bravo de Esmolfe, marmelos, dióspiros e romãs. Basta subir dez degraus de madeira, fixar a cabeça contra a porta da sobrecama, fazer força com o pescoço e com o auxílio dos braços upa, a porta levanta e lá está a cama de papel pardo. Sente-se o perfume maravilhoso dos frutos em repouso. As cores, lado a lado, parecem formar a bandeira de um país imaginário.
Das vigas de madeira do telhado pendem cachos de uva vermelha, de uma qualidade cujo nome não recordo. Num cesto de vime há nozes e figos secos, mas as uvas vermelhas são especiais. Vão à mesa no Natal e as que secam, comem-se na passagem de ano, uma por cada badalada.
Se o Outono descansa na sobrecama, o Inverno habita o andar térreo, um lugar frio ou fresco consoante a temperatura exterior. Ali, não há cheiros doces e macios. Ali, armazena-se o azeite para o ano inteiro e na salgadeira o toucinho, enquanto pendurados para venda estão o presunto, o lombo, o painho, o paio, o chouriço, a morcela e a farinheira. Há, ainda, os curados do fumeiro que descansam em grandes alguidares de barro ou fazem carreira pendurados em varas, com fortes ganchos, ao teto. O cheiro dos queijos, que a avó vira e limpa com azeite, chega do quartinho sem janela contíguo à casa das matanças, onde as crianças não devem entrar.
Entre o Outono da sobrecama e o Inverno do piso térreo há as outras estações. E o melhor está no quintal, nas árvores a que subimos, nos jogos de malha, nos banhos de mangueira, nos baldes de laranjinhas secas que rolam pela rampa do portão.
A casa é vivida em pleno, ninguém perde tempo com a televisão. É o lugar mítico da infância, o princípio do mundo para todos os que nela cresceram. O lugar onde continuo a ir num fechar de olhos.
N.B.
