Ainda escrevo cartas.
Professo uma espécie de militância interior que preserva o cunho pessoal, o que é singular, o que nos distingue, a caligrafia a título de exemplo. Não tenho uma caligrafia bonita, desenganem-se. No entanto, acredito que escrever pela própria mão seja um estímulo maior que vai do cérebro aos sentidos, uma espécie de catalisador de ecos.
Escrever uma carta, ou um postal é libertar parte do que se guarda por inteiro, é fazer prevalecer a vontade de dizer. A distância consome-se de forma diferente através de uma carta. Pessoalmente, é-me prazeroso preencher o destinatário, o nome próprio, seguido de apelido, a morada, o destino.
Ainda escrevo cartas e postais. Foi assim, que um dia recebi na volta do correio um pedido sui generis, que daria nome ao blogue, Escreve-me Devagar.
Sejamos claros, a recordação transporta-nos onde desejamos voltar. Escrever é visitar os que amamos. É aprender a contar a vida sem dizer muito, é lembrar o que ficou depois de já não estarmos todos. Guardo cartas e postais arrumadinhos numa caixa bonita. Folhas de uma só árvore, dos outros e de mim. E há uma caixa de correio vermelha, resiliente, conformada, gentil, que continua a morar entre duas portas fechadas, mas não serve para guardar as cartas que fermentam na minha mão.
É tudo tão contrário. Só deixa de o ser por paixão.
Ainda escrevo cartas.

N.B.

** Esta caixa de correio mora na Avenida 25 de Abril, na terra onde cresci.

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