A disposição das pessoas na nossa memória não se explica facilmente. Há medida que o tempo passa ajeitamos os mortos lá para dentro, na memória. Por isso, nem sempre vêm ao pensamento. Se caem da estante onde estão guardados, ou se algo os impulsiona para fora do arquivo, projetam-se como slides à nossa frente. É vê-los, ampliados nesta espécie de projetor interior: os meninos do berlinde, os cachopos do peão, os mais crescidos escondidos a fumar Kentucky, Português Suave, o que houvesse. O carteiro na bicicleta, de boina, o cigarro enrolado atrás da orelha. Chico, o senhor Chico Mota, traz notícias, boas, sem importância e  outras menos boas. Um homem alto, careca, chamam-lhe o João Grande, está encostado à ombreira da porta, de uma taverna que já não existe. Sinto o cheiro dos petiscos, do vinho barato bebido a copo ao balcão. E do outro lado da rua,  um carrinho de mão conduzido por um rapaz, o Raul,  a quem Deus fez diferente. O Raul cumpre a tarefa de empurrar o carro de mão, como se a deficiência perdesse expressão, na força impulsionadora de o empurrar. Mais à frente, em passo apressado segue uma mulher franzina, dizem-na embriagada, bêbada, é essa a palavra com que a descrevem. O filho, segue atrás, coxeando num bambolear de quem lhe falta algo, é um dos braços e a respetiva mão que não lhe obedecem. Vão discutindo até casa, num lugar chamado Canto Roubado. Nome estranho este, para onde caminham vezes sem conta, Mari Zé Maminhas e o filho.
Às treze menos dez, um Mercedes amarelo estaciona frente à mercearia. O homem mais rico do concelho compra um pão escuro, integral. É assim, todos os dias da semana, na rotina do senhor Artur Sequeira.
Não há morte que os leve. Afinal, um dos mistérios da vida é a morte. O esquecimento é o bafo da morte. Quando não houver quem nos recorde teremos definitivamente morrido.

A memória é uma espécie de depósito de valores. Às vezes, é preciso abrir gavetas, arrumar estantes. É o que faço.

N.B.

 

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