Imagino o amanhecer em Puerto Roque.
Puerto Roque é uma das linhas de fronteira que divide Portugal e Espanha. Habituei-me a ver estes Pirenéus sem sentir que nos dividissem, a portugueses e espanhóis. Em terras raianas sabemos, que muitas vezes, é dentro de portas que se criam estigmas. Não têm carácter geográfico.
Por aqui, homens e mulheres juntam-se no amor e no matrimónio. Por aqui, fazem-se negócios, vai-se de compras, vai-se a tapear e a picar nos bares de Valência de Alcântara e atesta-se o depósito de combustível, porque é mais barato. Há o mercado espanhol à segunda-feira e ninguém falta à Feria de Santa Maria de Agosto, nem às Corridas de Toros. É a sinceridade do quotidiano que desconhece fronteiras, nacionalidades ou idiomas. Serve-se apenas do que existe. Por isso, as Maias florescem tão amarelas do lado português, como do lado espanhol. Um especialista em olhares diria, que portugueses e espanhóis vestem a monotonia do interior de maneira diferente.
E à noite dentro das casas, de um e doutro lado da fronteira, quando as luzes se apagam, são apenas homens e mulheres que descansam. Os mesmos que ao acordar se fazem à vida, ignorando as assimetrias que os separam das grandes cidades. Ninguém se sente um habitante vulgar numa fronteira que se ergue de pedra.
Fotografia: Juan Carlos Jimenez Durán
Título: Atardecer de Puerto Roque (Vista de Pájaro).

2 Comments
Até aos meus dez anos todos os dias via estes rochedos. Pontualmente acompanhava a minha mãe até à Fontanera para comprar umas sapatilhas, uns chocolates ElToro, uma migana. E nunca percebi essa diferença que se quer entre espanhóis e portugueses. Só quem, de um ou outro lado, vive longe da fronteira tem esse sentimento.
Só hoje descobri o seu blogue. Vou continuar a ler.
Partilhamos o mesmo sentimento. É preciso viver perto da fronteira para perceber as particularidades destes lugares e das suas gentes. Continue por aqui. Fico grata, por ganhar um novo leitor.