Morre-se muitas vezes.
Foi ao pequeno almoço que esta ideia se fez texto. Falo do que sei, do que aprendi em quase dois anos de ausência da minha mãe. Era segunda-feira, logo a seguir ao domingo de Páscoa. Um dia marcado para sempre no calendário. A voz do meu irmão, do outro lado do telefone, como nunca a ouvi. Um acidente de viação, o som monossilábico que se propagou como um gongo a rebate. Um NÃO sem vida.
Não sei descrever a falta que me faz, que nos faz. Nestes meses adoptei um exercício. Faço caminhadas pela minha memória. Aventuro-me na perspectiva de não perder a nossa história, de não esquecer.
E nesta relação que se estabelece, entre o passado e o presente, a vida e a morte, apercebo-me de uma evidência. Morre-se muitas vezes.
A minha mãe morreu no dia 6 de abril de 2015. Morreu-me, depois disso outras vezes. À mesa da consoada no lugar que deixou vazio, as delícias que só ela cozinhava e na alegria de uma família que não é a mesma. Morreu-me no silêncio do telefone que já não toca, nas conversas longas que já não tenho. Morreu-me recentemente nas mãos num papel de carta. A anatomia estropiada dada a conhecer num relatório de autópsia, que preferia não conhecer. Procedimentos de uma legalidade burocrática. O corpo entregue assim, detalhado numa folha de papel.
Isto não são palavras tristes, são factos, evidências. Morre-se muitas vezes, porque morrer é algo que se replica nos outros, nos que amam, nos que não esquecem.
Quando fez 69 anos escrevi-lhe um texto. Foi o último aniversário. Começava dizendo, ” E seguiram viagem de mão dada, cada uma pelo seu caminho”. Terminava com um pedido, “Não me percas da mão”.
Agora sei, é assim que esta história termina. Para mim, que escrevo histórias, que faço caminhadas  pela memória, que descobri que se morre tantas vezes, tenho a certeza que continuamos cada uma pelo seu caminho. E morrendo-me tantas vezes, sei que não me perde da mão, por isso, é que vou indo. Cada qual ocupando o seu lugar, consciente da sucessão de faltas que é a vida.
Hoje o café ficou frio sobre a mesa. Tinha de escrever isto.

N.B.

 

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4 Comments

  1. Graça Vicente Responder

    E porque se morre muitas vezes, é também verdade a presença fascinante da vida…

  2. Sem dúvida, tal como andar numa cidade a fervilhar de gente, onde nos perdemos e onde nos encontramos:)

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