Somos tão físicos. Sem esforço somos lugares, objetos, pedaços de outrora, eco e silêncio.
Quando o tempo não tem pressa descobrimos outra sinceridade.  Nessas horas de miradouro imagino-me uma bicicleta de estilo vintage. Tudo tão nítido como as pequenas linhas desenhadas nas minhas mãos. Uma bicicleta cheia de particularidades e defeitos,  depende do olhar. A correia, por exemplo, mostra um certo vício de ajustamento. Não é defeito, é feitio. Um olhar atento descobre a velocidade a que gosto de circular. É uma velocidade justa, adequada ao caminho, ao piso e com reduções cúmplices nas pequenas falhas dos carretos.
O que importa é não circular demasiado na nostalgia, sobretudo do que não chegou a acontecer. O que importa é a cadência e uma velocidade que permita olhar o mundo, na expetativa de lhe vislumbrar melhoras.
O guiador tem uma campainha de timbre alegre a envaidecer as mãos que o seguram. As mesmas que professam a correção da postura, o alinhamento ergonómico na viagem sem destino.
Agrada-me imaginar tudo isto, vento que não se vê, mas sente -se. A vida fervilha em volta do corpo emocional que somos.

As coisas como elas são: o físico e o emocional. E pelo caminho bebericar tónicos de coragem.

N.B.

 

 

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2 Comments

  1. Não sei porque, mas nestes dias cinzentos em que me dá para meditar – «estados de espírito» (como eu lhe chamo), lembro- me de entrar no teu blogue Natália e começo a ler/ler/ler tudo aquilo que escreves (algumas vezes reler), mas porque gosto, já to disse. É isso!…Gosto!…

  2. Fico muito feliz com isso. Nestes dias cinzentos sabe bem receber um elogio assim, pela manhã. Obrigada.

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