Tenho os pés frios, tão frios que interferem com o pensar, isso lembro-me de mim, da minha infância. Pergunto-me o que ficou desse lugar’? Que traços, que gostos, que complexos, que manias? É hoje outro o sorriso? E o jeito de olhar?
Vejo-me muitos anos atrás. Sou uma invenção minha, talvez.
Isolar pequenos fotogramas da memória, é isolar a substância que provoca o riso, ou numa prova de total excentricidade, a própria felicidade.

Tenho os pés frios e vejo-me sentada frente a uma porta avermelhada, o colo em que me sento, o do meu pai. Sou a menina daquele lugar, um pequeno papagaio que canta e fala sem parar. Comecei a falar e a andar muito cedo. Todos me achavam graça. E à porta daquela taverna os amigos acudiam ao fim da tarde para um petisco,  um copo, três dedos de conversa.
Com os olhos do lado de fora percebo que não estão todos. A maioria vive na memória da família e dos amigos. Guardo de uns a voz, de outros o assobio e uma brincadeira que faziam, vezes sem conta. Acreditava ser possível uma daquelas mãos arrancar-me o nariz sem dor. E depois, procurava-o com espanto, num jogo infantil que provocava gargalhadas.
Há uma fotografia que guarda esse instante e valida sentimentos  e um olhar. Validar sentimentos é um processo que deveríamos cumprir com regularidade. Assumo a falta.

Gostava de lá voltar por segundos. Lembro-me que o meu pai me aquecia os pés e as mãos cheiravam a tabaco.

N.B.

 

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