Perita em cansaços. Conhecia-os a todos. Cada um justificava outro, numa espécie de cadeia de favores, ao contrário. O cansaço físico, o psicológico, o filial, o matrimonial, o social, uma enumeração que se avantajava se lhe desse espaço mental. E a televisão, que não dá nada de jeito. E a rádio que passa sempre a mesma música. E o tempo tão destemperado.
Dias gastos a ser cansaço, a andar por aí.
Nunca usou mais que a metade do que tinha. Metade da força, metade da vontade, metade do saber e das coisas que se pensam e se sentem, metade do sorriso, das lágrimas e até da dor. Só o cansaço lhe enchia a boca como um vómito que nem ela, já podia ouvir.
Um dia acordou sem ele. Não percebeu como nem porquê. Desaparecera.
De tempos a tempos, sente uma dor, um ardor, um desconforto. Nada que não passe. São mazelas do outro cansaço. Uma espécie de cicatrizes que lhe ficaram na alma.

N.B.

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