Devem ser 7h da manhã. O vizinho do lado já se ouve a tomar banho.
São 9h45, os funcionários do escritório, na esquina com a rua direita, dirigem-se à pastelaria da Nelinha.
São, certamente, 11h40. Ouço a porta do 3ºdt bater com desprezo. A empregada apressada para fumar, saí sempre antes do meio-dia. E não falha, é meio-dia. A sirene dos bombeiros não engana. Sempre pontual. É mesmo meio-dia.
São 14h24, mais coisa menos coisa, o senhor António lá vai buscar o netinho que saí às 15h da escola. Depois vão para a escola de música e às 16h20, já se ouvem a regressar.
São 18h, a Luísa abre a porta sem descanso. Dá explicações e a rapaziada nunca chega toda ao mesmo tempo.
São 20h, o senhor Vitorino está cada vez mais surdo. O telejornal do canal 1 ouve-se na sala dele e na dos outros sem precisar ligar a televisão. O sossego chega perto das 23h. Isto, se a Margarida, a mais nova do Antunes, aqui ao lado, não se meter no quarto a ouvir música.
Agora há um bebé no andar debaixo. Coitadito, tem noites que dá guerra. Chora ele e rezo eu para que lhe passe as cólicas, os sonos trocados ou o quebranto.
O que me faz falta o descanso!
Há pessoas assim. Vivem o tempo delas pela vida dos outros. Engordam os dias enganando as horas como se não houvesse solidão, apenas os outros que circulam e se movimentam como um pêndulo sobre o vazio. Talvez nem a ausência lhes pertença.
Afinal, há um relógio que dá as horas na casa dos outros.
N.B.
