O domingo é uma sala de espera. Pode assemelhar-se à sala de embarque de um aeroporto, lugar de passagem para a semana seguinte. Pode assemelhar-se à sala de estar de um lar de idosos, onde se depositam histórias esquecidas e pessoas. Pode assemelhar-se à sala de espera de uma maternidade, em que a ansiedade se chama esperança e vida a nascer. Decide, escolhe ou deixa o dia passar, mesmo sem escolher, estás sempre a decidir. Ou senta-te e aguarda, afunda-te no que não tens esperança de conseguir, ou enche-te de serenidade e deslumbra-te com o provir. Serve-te da religião, “Seja o que Deus quiser”.
Não há segunda-feira que não anteceda um domingo, nem domingo que não anuncie uma segunda-feira.
Se um dia me esquecer deste encadeamento temporal, que fiquem as memórias de um domingo, em que arrancava ervas daninhas no quintal dos avós e subia às tangerineiras para colher a maior das tangerinas. A mesa do almoço era farta e estávamos todos. A avó trazia para a mesa arroz-doce, rendilhado a canela pela paciência da mãe. E havia farófias com leite creme. Eu, o meu irmão e as primas repetíamos trava línguas. Dias benignos.
O domingo é um bom dia para traficar felicidade.
