Bastava uma folha de jornal para nascer uma enfiada de meninas. Todas iguais, braços abertos e mãos dadas. Passei tardes a brincar com elas, a fazê-las rodar, a ensiná-las a dançar em pontas como as bailarinas. As meninas de papel pertenciam a um mundo mágico, feliz.
Aprendi este entretém com alguém de quem gosto como uma avó. Tem agora 89 anos. Visitei-a no fim de semana. Não fizemos manualidades em papel, fizemos conversa de mãos dadas igual às meninas de papel e demos um abraço longo cheio de lágrimas, de que só nós sabemos o porquê. As mãos, uma na outra, recordaram o trabalho artístico que transformava papel em meninas, em chapéus, pássaros, lagartas e concertinas. Atualmente, chamam-lhe Origami. Para nós, era um mover de mãos e gestos precisos e risos e mais risos a cada figura que surgia.
Havia uma felicidade secreta nas nossas lágrimas que motivou a curiosidade dos outros na sala do lar, onde a visitava. Estar feliz e triste ao mesmo tempo confunde os demais.
Mesmo que tenha passado muito tempo para ela e para mim, mesmo que as meninas nunca tenham sido mais do que papel, mesmo que haja lugares onde nenhuma de nós pode voltar, quando nos abraçámos o tempo parou. E foi como sempre, o som das tesouras a cortar concertinas, chapéus, lagartas e bailarinas.
No ar partículas autónomas de luz e inteligência a que chamo amor.
N.B.
* Este texto é dedicado à minha grande amiga Joaquina Gavancha, que me ensinou a cultivar a imaginação, através de folhas de jornal e a imaginar histórias, que recontávamos sempre de forma diferente. Graças a ela percebi que a criatividade tem um significado cósmico inesgotável.
