Se fosse psicóloga diria que há processos de representação interna que apaziguam a realidade de cada individuo. Se fosse conselheira matrimonial ou algo do género numa qualquer paróquia, diria que tenho fé na capacidade utópica das pessoas se reestruturarem.  E se fosse criança estaria a jogar às escondidas, à procura de um lugar onde me esconder e a tirar prazer daquele medo de ser descoberto.
Mas como não tenho muita percepção do que sou, excepto quando alguém me chama a atenção para o que digo ou o que escrevo, embarco neste formato que me transporta a mim e a quem me quiser acompanhar.
O mundo sou eu e o que carrego comigo. Esta frase, é do filme da minha infância, numa idade em que me via a braços com tantos compromissos. Brincar, ir à escola, andar de bicicleta, gerir amigas, conversas, intrigas, estar em casa a horas.
Deste filme a preto e branco, recupero um dialogo que ainda hoje legisla a minha vida. Uma espécie de princípio da realidade ou do sonho, consoante a perspectiva:
” Porque me escolheste?- pergunta o menino ao gato.
– Não te escolhi. Foste tu que me escolheste. Foste tu que criaste esta simbiose, que nos alimenta. A primeira regra da vida diz, (se não diz devia dizer), que cada um nasce com o que lhe pertence, tudo o resto são conquistas, fardos, conveniências, coisas. – explica o gato
– Porque te escolho? – insiste o menino.
– Porque sou o intervalo, onde descansas e te divertes. – responde o gato.
– O que é um fardo? – pergunta o menino.
– É o peso, que alguns sustentam junto ao corpo, um peso que não se vê, mas se sente. – diz o gato.
– Como o teu peso, no meu colo? – retorquiu o menino.
– Esse é o peso do leite e das bolachas que repartimos e de todos os outros mimos. Não penses mais nisso, prometo que te ensino a ser gato. – suspira o bichano.
 
Se ao menos me lembrasse do que se seguiu. Foi sem querer que deixei de ser menina, de acreditar nas sete vidas dos gatos. Foi sem querer que conheci outras histórias de gatos, de fardos, de mundos que não querem mudar.
– O que farias gato, quando descobrisses que o mundo não muda, ou que não muda como tu queres?!
 
N. B.
 

* imagem pinterest

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