Conhecemo-nos na praxe na Faculdade de Letras de Lisboa. Eu uma miúda de 18 anos e ele, já homem, com quase o dobro da minha idade. Destacou-se entre os caloiros, não por ser o mais velho, mas por uma particularidade que a todos surpreendeu. Era cego, invisual, como prontamente corrigiu um veterano.
Ficámos amigos. O Sérgio era uma pessoa excecional. Perdeu a visão já adulto, após ter concluído um curso de engenharia. Conhecia as cores do mundo, sabia o que significava ver e ser cego. Era um homem de armas, decidido a estudar. Escolheu a Faculdade de Letras, porque havia um departamento de apoio a invisuais.
A primeira vez que precisei de comprar livros, foi ele que me guiou até ao Campo Pequeno, onde ficava a livraria. Ao meu lado, o Sérgio parecia um GPS, contava as estações de Metro, dava-me referências: uma rua ladeada de árvores, o nome de um café e lá chegámos.
O Sérgio era inteligente e dono de um sentido de humor fantástico. Entre nós, fazíamos apostas para testar se nos confundia quando nos aproximávamos e lhe tocávamos. Acertava sempre. Eu, a Rita Vizinho, a Teresa Cortez, a Paula Coelho, a Elisabete Bento ou a Soalheiro, adorávamos fazer-lhe esta partida. Ele, sorridente, dizia que conhecia o perfume de cada uma.
A primeira Stand up Comedy a que assisti, foi improvisada por ele e outros amigos, na Residência Universitária Pedro Nunes.
Hoje, celebra-se o Dia da Visão. Quero prestar esta homenagem póstuma ao Sérgio. Uma pessoa invulgar, que sabia dizer e ouvir. Às vezes, quanto aturava as minhas crises existenciais sobre a escolha do curso, respondia-me com ar sereno:
” Gosto dos teus problemas, miúda. São uma espécie de desimportâncias, com alguns pormenores que deves analisar”. Riamos disso.
Sou terrivelmente privilegiada por o ter conhecido.
N.B.
* imagem Pinterest
