Nascem colmeias de gente em todas as cidades. Prédios altos com muita gente dentro. Os elevadores, por força das circunstâncias, são o ponto de encontro de condóminos, de vizinhos sem vizinhança. Ali, rezam-se os Bons Dias, as Boas Tardes, as Boas Noites. Às vezes, solta-se um Olá, um curto diálogo próprio do momento. Se há crianças a viagem tem piscar de olhos e sorrisos. Se há cães desejosos de chegar à rua, então depende do cão, do dono, dos condóminos que entraram no elevador.
Nestes prédios habitados de gente que a maior parte do tempo pernoita, há também “os residentes”, uma espécie de porteiro sem o ser. Nada lhes escapa, hábeis a encontrar novas identidades para cada um dos inquilinos. Não há como enganar, basta atender à conversa: “O careca, de bigode, do 2ºC”, ” A magricela perfumadinha do 8º A”, ” O pai dos gémeos, do 4ºD”, ” A mal-encarada do 1ºB”, ” A dona  do caniche com lacinhos”, “O que parece o Figo, o jogador de futebol”. É assim todos os dias, no patamar dos residentes.
As colmeias encaixam-nos, uns por cima dos outros, piso a piso, tantas almas, tantas histórias e mexericos e amores novos ou velhos, segredos, famílias de diferentes tipologias, nomenclaturas de uma sociedade moderna rotuladora e sexista, apregoa a perfumadinha do 8ºA. Outros escrevem aqui parte da sua história, o do Pedro e da Carminho que casaram este Verão, ele do 3ºA, ela do 9ºC.
Goste-se ou não é a vida numa colmeia de gente. Afinal a vida reparte-se por tantos lugares, este é apenas mais um.

N.B.

* Imagem Pinterest

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