Hoje escrevo na rua. Há textos que precisam de ar fresco.
 Agrada-me escrever fora de casa, nesta esplanada. Demoro-me num “café se faz favor”, num olhar que se cruza com o meu, numa espécie de falso movimento. Sobre a mesa um caderno e uma caneta esperam pelo café.
Há uma lista no caderno,  fruto de uma espécie de auto psicanálise. Uma estratégia que adoptei neste processo de luto, de Reconstrução Pessoal.
Aprender a viver com o que não está ao nosso alcance alterar, acontece a todos num determinado momento da nossa existência. Em vários textos que publiquei, fiz referência à perda da minha mãe, num acidente de viação. Foram vários os textos. Em Dezembro de 2015, a terminar o ano civil, escrevi o texto “Reconciliação”.   (** http://nb-lilaz.blogspot.pt/2015/12/2016-reconciliacao.html)
 O ano de 2016 mostrou-me que há um outro R,  neste processo de luto. O R de Reconstrução.
 Todo o projecto urbanístico de Reabilitação e Reconstrução necessita de Alvará. Precisei de um Alvará. Precisei do (meu) consentimento, da aceitação.
 Reconciliar-me com a vida, comigo e com os outros obrigou-me a verificar os alicerces “da casa”.
E surgiu a lista que tenho à frente, com o que era fundamental para a mãe, o que era inegavelmente prioritário, as frases de que se valia para afirmar da verdade e da razão, as tradições que sempre respeitou e transmitiu. Uma lista grande, como a bagagem de um passageiro, que se prepara para viajar.  Uma espécie de,  Elogio da Avó Glória, para o conhecimento futuro das netas.
(Agrada-me escrever na esplanada, a emoção diluí-se no ar e no vento.)
  E, nisto tudo, descubro muitas idades em mim, repartidas pelas divisões da casa, pelo tempo da história.
 E se fecharem os olhos, se encostarem o ouvido ao texto, ouvirão sons de fundo. Sou eu, em reconstrução.
N.B.

 

Autora

2 Comments

  1. Para escrever Natália, diga- se, de uma forma «MAGNIFÍCA», e que aprecio sobremaneira; não precisa de "lufadas" de ar fresco, as palavras, as frazes, saiem expontânes – fluentes, que nos deixam embevecidos. Quanto ao «Alvará de Reconstrução» "Reconciliação" – Sinto muito; mas a vida é isto…mas faz bem desabafar…(e escrever é uma boa forma de o fazer). E, eu calculo, adivinho – «ouço os sons de fundo»…

  2. Obrigado. Sei que acompanha o que escrevo, sei que tem entendimento e sensibilidade para ler nas entrelinhas e para ouvir o som baixinho, desta Reconstrução, que também passa pela escrita.

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