“Um gajo sem vícios!”
Esta é a frase com que António Amável presenteava, quem com ele trocasse prosa. O Tonio Amável como lhe chamavam, era a personificação do engano em figura de gente, no dizer da Dona Cesaltina, mulher robusta, vizinha de toda a vida e das poucas pessoas a quem, Tonio Amável, guardava respeito.
As más línguas contavam que nascera de um engano, uma traição. O pai emigrante em França, quando soube, não assumiu o que lhe nascera em casa. Nunca mais voltou à terra, para lá deve ter ficado.
Deu-lhe o nome, Amável, e com isso quis silenciar o falatório.
Desde pequeno, que Tonio aguentava as piadas por ser Amável. Tinha bem guardada na memória a lembrança de si próprio, sendo confrontado com uma identidade que lhe era indevida, pela paternidade e pelo significado do nome Amável, que decididamente, nele não encontrava uma néscia de razão.
Quase quarenta anos depois, Tonio Amável, era um homem franzino, de ombros estreitos, parco de carnes. Não fumava, não bebia, não jogava às cartas, nem era de comezainas. Tonio era uma espécie de ” intelectual” para a desdenha daquela gente. Apenas, completara o 2º ano da Telescola e papava livros, como quem come tremoços. O padre, o único que lhe tinha consideração, trazia-lhe livros e revistas amiúde. E costumava dizer aos paroquianos:
-” Este homem sacha para dentro uma horta imaginária, de onde nascem palavras que ninguém ouviu, frases bonitas, imagens belas.” O povo, por respeito, ouvia e calava sem entender, o que era isso de “sachar para dentro“.
A vida deste homem sempre teve esta sina de dar que falar. Agora, as cabeças enchem-se de perguntas e de dúvidas. Ninguém lhe conhece mulher, só os livros e as terras que trabalha com afinco. Por isso, à mesa do Café do Adro destila-se veneno. Há quem arrisque e diga que Tonio Amável é um “invertido”. Um “maricas”, apressa-se a explicar a Martinha, perante o ar interrogativo, da Fátima do Zé da Fazenda.
Tonio Amável é de poucas falas, mas bem falante. Um homem sem vícios, como se orgulha de dizer. Nele cabem todas as palavras que leu, as justas, as belas e as ordinárias, também.
Por isso, ao passar no Adro percebe que é dele que se fala. Não se inibe, olha o mulherio de frente e bem alto arremessa-lhes o lodo:
– “Mulheres d´um cabrão! Não têm que fazer?!? Vão p´rá puta cás pariu!”

N.B.

** Caderno em construção,” Histórias de um lugar, para lá do sol posto”, de Natália Batista.

 

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