Bem-vindo ao futuro, meu amor.
Era disto que te queria falar quando a casa ficou vazia. Não sei se não quiseste ou não soubeste perceber. Ignoraste os estalidos da madeira na mobília, escondeste-te no volume altíssimo da televisão. As gargalhadas sumiram, a calmaria entrou-nos pela porta e sentou-se no nosso sofá.
Tudo isto precisa de uma ação de despejo concertada para recuperarmos a casa cheia, do que tantas vezes nos cansava.
Era disto que te queria falar. Vejo que, também, tu olhas em volta, os quadros na parede, as fotografias, os bibelôs, os souvenirs das nossas viagens e das que outros fizeram. A alma das coisas, meu amor, e o nosso vazio.
Ficámos os dois. Não somos um quadro com os tons do entardecer. Não somos a recordação de uma bonita viagem, nem os momentos felizes espalhados em molduras pela casa.
Era disto que te queria falar, meu amor, nós somos a Casa.
Tu e eu somos portas, janelas, somos sala, somos quarto, somos cama. Habitas-me e eu em ti, também.
Não vestimos a monotonia das vidas vulgares, nem a dor que se manifesta quando empurramos a planta dos pés contra o chão nos torna iguais a tantos outros.
Era disto que te queria falar, meu amor, da nostalgia do entardecer. Esse, sim, é como nós.
Um lugar magnífico, como a abstrata linha do horizonte. Único.
Era disto que te queria falar, meu amor.
N.B.
* imagem pinterest
