Bem vindo ao futuro, meu amor!
Era disto que te queria falar, quando a casa ficou vazia. Não sei se não quiseste ou não soubeste perceber. Ignoraste os estalidos da madeira na mobília, escondeste-te no volume altíssimo da televisão. As gargalhadas sumiram, a calmaria entrou-nos pela porta e sentou-se no nosso sofá.
Tudo isto, precisa de uma acção de despejo concertada, para recuperarmos a casa cheia, do que tantas vezes nos cansava.
Era disto que te queria falar. Vejo que, também tu olhas em volta: os quadros na parede, as fotografias, os bibelots desse mundo afora, das nossas viagens e das que os outros fizeram.
A alma das coisas, meu amor e o nosso vazio.
Ficámos os dois. Não somos um quadro com os tons do entardecer. Não somos a recordação de uma bela viagem, nem dos momentos felizes espalhados em molduras, pela casa.
Era disto que te queria falar, nós somos a Casa.
Tu e eu somos portas e janelas, somos sala, somos quarto, cama. Habitas-me e eu em ti, também.
Não vestimos a monotonia das vidas vulgares. Nem a dor que se manifesta, quando empurramos a planta dos pés contra o chão, nos torna iguais a tantos outros.
Meu amor, era disto que te queria falar, da nostalgia do entardecer. Esse sim, é como nós!
Uma espécie de destino magnífico, belo como a abstracta linha do horizonte.
Era disto que te queria falar.

N.B.

* imagem pinterest

 

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