Olha-me esta estrada. Não tem fim, não acaba. Não há cafés, nem hortas, nem paragens. Há uma cabine telefónica que não faz sentido, porque toda a gente está ligada a uma rede qualquer.  A paisagem não é monótona, apenas esta voz que se repete há quilómetros: “Nunca foste capaz de mudar as coisas! É agora. Só há uma maneira de te aguentares aqui, é agora!”
Mando-a calar, subo o som do rádio, abro a janelas, crio o ruído capaz de a sufocar. Mas não tenho hipóteses, nesse momento não sei como, sintonizo a Renascença e o locutor anuncia a palavra do dia: ” Há um Domingo, um jardim, um abraço, um calendário, à espera de quem está disposto a gozá-lo. E para lá chegar há que seguir a estrada. Não desistas. Estás a chegar.” .
Desligo o rádio, paro na berma, saio do carro. Não há coincidências. Há?!
Desconfio da voz interior, desconfio da voz do locutor. Olho a estrada, sinto-me um louco normal. Um descrente, mas tão disposto a assentir nos merecimentos prometidos.
 O melhor é pensar em tudo isto, como num convite. Sim, um convite que reúne todas as condições para ser aceite.
NB

 

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