Olha-me esta estrada. Não tem fim, não acaba. Não há cafés, nem hortas, nem paragens. Há uma cabine telefónica que não faz sentido, porque toda a gente está ligada a uma rede qualquer.  A paisagem não é monótona, apenas a voz que se repete há quilómetros: “Nunca foste capaz de mudar as coisas. Chegou a hora. Só há uma maneira, é mudar, é agora.”
Mandou-a calar, subiu o som do rádio, abriu a janelas, criou ruído capaz de a sufocar. Mas não havia a mínima hipótese, nesse momento não soube porquê, sintonizou a Renascença e o locutor anunciou a palavra do dia: ” Há um Domingo, um jardim, um abraço, um calendário, à espera de quem está disposto a gozá-lo. Para lá chegar, há que seguir a estrada. Não desista. Está a chegar.” .
Desligou o rádio, parou na berma, saiu do carro. Não há coincidências, há?- questionou-se.
Desconfiou da voz interior, desconfiou da voz do locutor. Olhou a estrada, sentiu-se um louco normal, um descrente, disposto a assentir nos merecimentos prometidos.
 O melhor era pensar em tudo isto, como um convite. Sim, um convite que reunia todas as condições para ser aceite.
N.B.

 

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