Isto começou agora. Isto começou em 2013, quando criei o blog, “Escreve-me Devagar”. Começou em Heidelbreg, na Alemanha, quando percebi o tamanho do mundo. Começou na faculdade quando quis mudar de curso, ir para Direito, sei lá!
Começou quando me apaixonei, todas as vezes que me apaixonei. Quando adoeci e pensei que não completava 23 anos.
Começou no secundário quando descobri Pessoa, quando li Cardoso Pires, Saramago, Sophia de Mello Breyner, Thomas Mann, Garcia Lorca. Quando ouvi pela primeira vez os U2, numa festa improvisada, em casa de um amigo, enquanto a mãe dele fazia turno.
Isto começou quando quis guardar as histórias que a tita Maria, viúva de um tio espanhol que não cheguei a conhecer, nos contava, todos os Verões, em casa dos avós. As festas de Alicante, os vestidos da realeza, a cor carmim do batom das espanholas, o medo e a desconfiança que viveu durante os anos da Guerra Civil Espanhola.
Começou quando absorvia, palavra por palavra, as histórias sobre contrabando que o avó Barradas contava ao serão. Sem compreender muito bem como se podia trocar ovos por café.
Começou quando, num domingo de manhã, soube que se pode morrer de morte súbita, aos 14 anos, a jogar futebol. Quando não havia respostas às perguntas, que todos fazíamos incrédulos. Quando quis guardar, para sempre, o sorriso de um amigo. Chamava-se Joaquim Maria.
Isto começou de tantas maneiras, que não as posso enumerar. Em lugares tão dispares: a casa dos pais, o quarto alugado já na faculdade, a primeira casa, a sala de aula onde entrei professora, pela primeira vez. A maternidade de onde saí mãe.
Nem sempre se fez dos melhores motivos. Houve muitos “nãos”, desencontros,  coisas diversas, sem classificação, desemprego prolongado, desilusões, os outros.
E houve uma frase que a minha mãe escreveu, quando eu estava em Heidelberg: ” Escreve-me Devagar”, pediu ela. A frase que deu nome a tudo isto.
Em 2015, quando recebi a notícia do acidente de viação que a vitimou, encontrei aqui uma forma de respeitar o que a minha mãe me ensinou, o que um dia me pediu em jeito de brincadeira.
Parece que foi tudo há muito tempo, mas foi agora.

N.B.

 

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