Sendo assim, começo a crer que nos conhecemos de outro tempo, outro lugar. As teorias da reencarnação nunca me convenceram, mas acho-lhes graça. Imagine-se a possibilidade de viajar por aí, através do tempo, noutros corpos, outras massas sensitivas. Tanta vida, quando o que nos espera é a morte.
Sendo assim, consigo encontrar por instantes uma explicação para esta sensação que provocas, quando te olho nos olhos. O frente e verso de uma história sem nomes nem rostos, sem princípio nem fim. E, no entanto, há uma pergunta que se escreve letra a letra quando te vejo:
“- Que faço aqui tão longe?”
Não sei como me vês. Ando tão desarrumada como uma casa em mudanças. Sempre que faz falta algo, desculpo-me com tanta coisa que há para desempacotar.
Porque o que me faz falta é falar das coisas sem importância. Deixei isso noutro lugar, onde já não posso voltar.
É tudo uma coincidência, um estremecimento azul como a cor com que pinto os olhos ou a tinta que se espalha eufórica, quando escrevo. Quanto ao resto, reencarnação, casualidade, atração, chama-lhe o que quiseres. O corpo é carne, sangue, músculos. Os ossos? Não me esqueci. São os alicerces da obra.
Fazem parte do mistério que vejo em ti.

N.B.

 

* imagem pinterest

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