Este é o momento em que a nossa sombra fica maior que nós. Ao contrário da vida que se revela tão excessiva, pernas honestas esgotam só o essencial: o fastio, o tédio, a preguiça, o ruído dos outros na pele. Avançamos com o fundamental e sofremos juntos, em separado.
O crepúsculo empresta-nos outra cor, agiganta-nos a sombra. Olho-te pelo canto do olho e pergunto-me: – Que parte de ti me pertence?
 Um pensamento próprio de tardes paradas, que não esta.
Tu falas, estás inspirado. Vais dizendo que é preciso criar objectivos ao invés de sonhos. Concordo. O meu pensamento é outro, há madrugadas futuras quando pedalo. E a alma, muitas vezes revirada, encontra o alinhamento na estrada,  na cadência, na força, na velocidade, na respiração controlada.
 Entre mim e as minhas pernas há um diálogo exaltado. Digo-lhes, que não é saudável resistir. Respondem-me irónicas e indisciplinadas: “- Ao amor, certamente. A tudo o mais, importa bem pouco a intensidade do doer.”
Não alimento mais conversa. Olho para ti e reconheço o sorriso de quem pensa no caminho de volta. Piscas-me o olho.
Não se recomenda a ninguém.
N.B.
Autora

Escreva um comentário