A política não me mobiliza, não me acode ao pensamento quando escrevo.
No entanto, esta campanha presidencial de 2016, trouxe à lembrança um sobretudo loden verde, de outra campanha presidencial. Foram as primeiras Presidenciais ganhas à segunda volta, estávamos em 1986.
No liceu de Portalegre, onde fazia o secundário na área de Jornalismo, falávamos das máquinas partidárias, dos slogans, das músicas que entravam no top de vendas, como o “Rock da Liberdade”, cantado por Rui Veloso, com letra do realizador Pedro Vasconcelos. Adorava aquelas aulas de jornalismo, em que éramos chamados a pensar. O professor era padre, homem de mente aberta, chamado Fernando Farinha. E foi lá que ouvi falar do sobretudo, loden verde, envergado pelo Professor Freitas do Amaral. Coisas do marketing.
Perdi-me de amores pela peça de vestuário, pela sobriedade do corte, do estilo, da cor. A campanha decorreu comigo a tentar convencer a mãe a comprar-me um. Entre slogans de “P´rá Frente Portugal”, dos apoiantes de Freitas do Amaral e um “Soares é Fixe”, lá andava eu atenta à mobilização popular e ao sobretudo loden verde. Havia distribuição de autocolantes, bandeiras, gritava-se slogans nas ruas e praças por todo o país e houve escaramuças na Marinha Grande, que atingiram o candidato Mário Soares. Foram outros tempos em que a mobilização e a participação popular se faziam sentir.
Acompanhei tudo de olho no sobretudo, enquanto Freitas do Amaral perdia a primeira volta por um triz. Entro na segunda volta das presidenciais munida de novos argumentos, tal qual os candidatos presidenciais. E resultou, porque o meu aniversário, no empolgante mês de fevereiro de 1986, trouxe-me o presente pretendido. O candidato do sobretudo verde loden perdeu as presidências para Mário Soares, que contou com o apoio de toda a esquerda.
Foram as eleições mais espetaculares de sempre, ainda que não pudesse votar por ser menor. Senti-me vencedora, de alguma forma. Foram as eleições em que acreditei que o país tinha gente criativa, inteligente, reivindicativa, entusiasta, a transpirar fé e ambição nacional.
Usei o sobretudo anos a fio. De alguma maneira acompanhou o desgaste que se foi sentido na política e no país.
Quando recordo as aulas de jornalismo, as discussões construtivas nas aulas do professor, Fernando Farinha, quando me imagino vestida com o sobretudo tão desejado, sonho que o país volte a fervilhar de gente participativa, consciente do poder da mudança que mora nas ruas.
Há alguém que nos venda um mundo novo com outra roupagem?
N.B.

9 Comments
À semehança de posts anteriores, gostei muito deste, pela actualidade em perfeita harmonia com o Passado. Parabéns!
Obrigada Isabel Janeira. Bem-vinda. 🙂
Obrigada Isabel Janeira:)
Gosto sempre dos seus textos, pelos temas que aborda, como se exprime e por se referir ao nosso Alentejo.
Também estudei no liceu de Portalegre (texto do sobretudo loden) e conheço Santo António das Areias, nasci e vivi em Nisa.
Olá Maria, então somos conterrâneas:) O Alentejo faz parte de mim, é inevitável aparecer na minha escrita. Obrigada pelo comentário e por vir aqui. Um Bom Ano.
Lembro-me muito bem, Natália. E o sobretudo até era bem giro, uma boa peça de design fora do habitual. Em termos de marketing foi um sucesso e carimbava politicamente para o bem e para o mal quem o usava. Pessoalmente nunca o usaria, pois detestava o Freitas do Amaral por razões que mais tarde se vieram a confirmar, ao, oportunisticamente, dar uma cambalhota enorme do CDS para o PS.
Faz parte do passado recente da política nacional, para mim é muito mais do que isso. É uma memória que registei, que me trouxe muitas emoções e que contribuiu para um exercício de busca e detalhe. Obrigada por comentar e por estar desse lado, António.
Olá Natália
O meu nome é José Eduardo, não andei no liceu de Portalegre(sou alfacinha), aliás em 86 eu já era um rapaz de 36 anos, mas a memória do sobretudo verde, jamais se apagou. Assim se mantivesse viva a imagem dos actuais políticos, que em termos de legado, vão perder para uma peça de roupa, que ainda hoje é recordada pela positiva,independentemente do cabide.
Muito obrigado por mais um belo naco da tua prosa.
Olá, José Eduardo. Gostei muito de saber que estiveste aqui, a visitar-me:)Esta peça de vestuário traz à memória uma das eleições mais concorridas. Um momento de participação cívica a que nos desabituamos. Beijinhos