A política não me mobiliza, não me acode ao teclado quando escrevo.
No entanto, esta campanha presidencial, trouxe-me à lembrança um sobretudo loden verde, de outras campanhas. Refiro-me às primeiras Presidenciais ganhas só à segunda volta, estávamos em 1986.

No liceu de Portalegre, onde fazia o secundário na área de Jornalismo, falávamos das máquinas partidárias, dos slogans, das músicas que entravam no top de vendas, como o “Rock da Liberdade”, cantado por Rui Veloso, com letra do realizador Pedro Vasconcelos.
Adorava aquelas aulas de jornalismo, onde éramos chamados a pensar sobre.
O meu professor era padre, um homem de mente aberta, chamado Fernando Farinha. E foi lá que ouvi falar do sobretudo loden verde, envergado pelo Professor Freitas do Amaral. Coisas do marketing.
Perdi-me de amores pelo sobretudo. Conquistou-me a sobriedade do corte, do estilo, a cor.
A campanha decorreu comigo a tentar convencer a minha mãe a comprar-me um.
Entre slogans de “P´rá Frente Portugal”, por parte dos apoiantes de Freitas do Amaral e  um “Soares é Fixe”,  lá andava eu atenta à mobilização popular.
Havia distribuição de autocolantes com fartura, bandeiras, slogans gritados nas ruas e praças, por todo o país. Até escaramuças na Marinha Grande, que atingiram o candidato Mário Soares. Havia mobilização popular!
Acompanhei isto tudo, de olho no bendito sobretudo loden verde. E Freitas do Amaral perde a primeira volta por um triz.
Entro na segunda volta das presidenciais munida de novos argumentos. O meu aniversário neste empolgante mês de Fevereiro de 1986, deu-me a vitória.
Em contrapartida, o candidato do sobretudo verde loden perdeu as presidências para Mário Soares, que contou com o apoio de toda a esquerda.
Foram as eleições mais espectaculares de sempre, ainda que não pudesse exercer o meu voto, por ser menor.
Foram as únicas em que senti ter ganho algo, o sobretudo verde.
E foi, certamente das poucas eleições em que acreditei que o meu país tinha tanta gente lutadora, criativa, inteligente, patriótica, reivindicativa, disposta, entusiasta, a transpirar fé e ambição nacional. As ruas fervilhavam, tinham poder.
Usei o sobretudo anos a fio. De alguma maneira acompanhou o desgaste que se foi sentido na política, no país.
Quando me revejo nele, nas aulas de jornalismo, nas discussões construtivas que o professor fomentava, desejo tanto, mas tanto, que alguém voltasse a fazer-me acreditar num mundo novo. Há por aí alguém que me venda, que nos venda um mundo novo?!?
Prometo, que farei de tudo para o conseguir, tal como fiz com o sobretudo loden verde.

N.B

 

 

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