Há duas semanas que ouço: ” Sabes quem está quase, quase, a fazer anos? É a Daisy!“. E hoje é o dia. Por isso, escrevo sobre ela, a minha filhota de quatro patas.
Todos os cães têm uma história, na maior parte das vezes mistura-se com a dos donos.
Costumo dizer que uma casa só é uma casa, quando se enche do que não planeámos. É aí que nos ajeitamos, que fazemos cedências e recebemos beijos de mérito, sorrisos de louvor, abraços destravados que quase nos atiram ao chão. A Daisy faz parte deste lado não planeado da casa.
Planeámos filhos. Nasceu a primeira e planeámos mais. Ao longo de dez anos fizeram-se anunciar sem nunca os chegar a conhecer. Cada perda eternizava um desejo maior que os restantes. Fomos e viemos do médico. Desistimos.
Somos assim, capazes de nos transformar naquilo que nos falta. E foi aqui que conheci a Daisy. Uns olhinhos meigos do lado de fora, uma criança lá dentro. Apenas com dois votos a favor, o homem da casa votou contra, ganhou a maioria, que é nestas coisas que a boca se enche de democracia.
A Daisy instalou-se nas nossas vidas, no nosso sofá. Habitou-nos! Encheu-nos o colo. E quando tudo tinha a proporção certa de uma casa arrumada, voltámos a ser pais de outra menina. Cresceu com a mais nova e nutre pela mais velha a admiração por um ídolo. Conhece as rotinas da casa como ninguém e é no meu colo, que gosta de fazer serão.
Tenho a sensação que não se reconhece enquanto cão, até pelo desdém com que vota os outros caninos. Surpreende-me, em atitudes tão humanas que dispensam palavras.
A Daisy está de parabéns.
Olho para ela. O tempo não se reflecte naqueles olhos, apenas nós. O que para mim é tempo para ela é lugar, a nossa casa.
N.B