Hesitei antes de escrever isto, antes de dar o meu testemunho sobre as tragédias rodoviárias, que são relatadas na televisão e nos jornais e que digerimos como um prato de sopa.
A minha mãe faleceu à pouco tempo num acidente de viação que envolveu o meu pai e a minha sobrinha de nove anos. O acidente foi noticiado, num jornal regional e no CM. A vítima mortal foi referenciada como idosa atendendo à faixa etária. A mim chegou apenas a pior das notícias, a morte da minha mãe. Uma mulher activa, super positiva, uma pessoa doce, solidária, bem humorada e dedicada à família. De idosa tinha os setenta anos de vida, que a incluem nessa categoria dos idosos.
É isto e pouco mais o que nos contam sobre as vítimas destes e outros acidentes. Mas há uma realidade absolutamente devastadora, neste quotidiano das estradas portuguesas. Há a devastação psicológica, moral, social, familiar de inúmeros lares. Há feridas que não saram, há cicatrizes que marcam e deformam para sempre.
A prevenção rodoviária está gasta de campanhas e apelos, de consciencializações que parecem ser importantes só para os outros, até vivermos isto!
A minha vida mudou, a nossa família já não é a mesma. Cresci e envelheci em segundos, fiquei órfã em segundos. Parte de mim desapareceu com a minha mãe e parte dela está em mim, num prolongamento que só o amor eterniza.
Nas últimas 48h aconteceram dois acidentes com autocarros de passageiros. Quase assistimos a tudo em directo e penso nas famílias, que como nós têm de enfrentar o luto inesperado. Tira-me o sono!
Penso nos pequenos memoriais que encontramos em tantos troços de estrada. Flores, cruzes de madeira, um marco de vidas ceifadas. Penso, se todas as famílias tomassem esta iniciativa, as bermas das estradas portuguesas seriam jardins de flores, memoriais fúnebres. Como seria acordar e ver por cada vítima uma cruz, um ramo de flores. Faria diferença? Não sei, penso que chocaria como qualquer campanha rodoviária. Talvez não mais que isto. Mas são milhares, milhares de vidas que se perdem, que ficam estropiadas para sempre. Partilhar este sentir, aqui no blogue ou numa rede social, é um desabafo, um grito no escuro. Se se fizer ouvir, se fizer diferença, se alguém se identificar. Se… para mim já valeu a pena.
Neste blog dediquei um texto a um grande amigo, que perdi assim, na estrada. Dei-lhe o título de “Um Comboio e Muita Gente”. Foi escrito em Junho de 2013, muitos anos depois da sua morte.
Há sim! A minha mãe é insubstituível.
O silêncio não apazigua, escrever sobre tão enorme perda é uma forma de abraçar quem volta para casa assim.

É importante pensar nisto.