Existe um sanatório de palavras. É um lugar aparentemente tranquilo e surpreendente para quem o encontrar.  Alas imensas, corredores repletos de frases, de palavras, umas apáticas encostadas às paredes, outras a apanhar sol no lancil das janelas, algumas, teimosamente, acocoradas no chão frio. Quase todas aparentam estar tranquilas, conformadas, conscientes da necessidade de passar por ali, como condição para voltar à atividade narrativa. São fortes na fragilidade com que as vejo a deambular, na ala direita, no sanatório de palavras. Vislumbra-se lhes o cunho interventivo, o amor, a expressividade.

Na ala esquerda o cenário é outro. Ali, estão as palavras gastas, as que se sentem excluídas, as que perderam toda a esperança no futuro.

Existe um sanatório de palavras, porque há palavras que adoecem, que perdem o significado como quem perde a alma nas filas de trânsito e segue em frente no sinal vermelho.
Se o mundo soubesse da sua existência, talvez compreendesse que as palavras também adoecem. Talvez as tratasse com outro cuidado, com outro respeito.
Afasto-me dali com a sensação de deixar para trás corredores cheios de conhecimento, mas vazios de sabedoria.
E tento libertar-me de uma imagem, a do recanto das palavras devolutas, vazias de significado.

Foi o silêncio que me contou.

N.B.

* imagem retirada da net

 

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