Nestes dias em que o vento empurra as gaivotas contra o cais, as águas ficam verdes de raiva. As gaivotas parecem tranquilas, conhecem o vento e sabem que não adianta contrariar. Deixam-se levar, o corpo como um planador, salpicado pela espuma.
Nestes dias de nortada, o meu estilista é o vento que me quer despenteada, as roupas em desalinho, num toque desajeitado e selvagem.
Não lhe entendo o assobio, nem a rudeza estrangeira que o vento daqui não se expressa assim.
A natureza não é feita à medida do calendário. As estações do ano atropelam-se, misturam-se, fazem-nos dor de cabeça, baralham-nos com alguma graça.
É danado este vento!
E neste cenário de águas revoltas, de gritos estridentes que cortam o ar, ganha o vento.
Dou-me conta do muito que se perdeu, nesta semana. Morre o poeta Herberto Hélder, caí um avião com 150 pessoas a bordo. Uma ventania que arrepia, que nos tolda a alma.
Se pudesse parar o vento e recuperar a paz que voou e saber rezar, ou planar como as gaivotas perante a tempestade.
Como se faz?
