Uma manhã fria de Fevereiro, temperaturas a rondar os 4 graus negativos, nada que nos demovesse de conhecer o Bairro Judeu de Praga e a Sinagoga Pinkas. Sabia que ali encontraria um memorial do Holocausto, mas não esperava o que encontrei.
O primeiro impacto: uma sala vazia, com um grande pé alto e nas paredes cerca de 80.000 inscrições, correspondentes aos checos assassinados, nos campos de concentração polacos e alemães. Olhássemos em que direcção fosse os nomes, as datas de nascimento e morte preenchiam tudo. A minha filha, então com onze anos, começou a fazer contas à idade das vítimas, num exercício que nunca mais tinha fim.
Era proibido fotografar e uma senhora de meia idade certificava-se disso. Percebi que olhava para a minha filha, que continuava, surpreendida, chocada, a contar pelos dedos, sem querer abandonar a sala. Com a máquina fotográfica pendurada ao pescoço, a menina esqueceu-se e preparou-se para fotografar. Apressadamente, repreendia-a e olhei para a vigilante que se dirigiu a nós e perguntou qual era a nossa nacionalidade. Quando respondemos, que éramos portugueses, disse-nos que a menina podia tirar uma foto, para que nunca se esquecesse.
Não havia mais ninguém naquela sala, excepto nós e a vigilante. A foto é esta, mas não serve para retratar a comoção sem idioma que se estabeleceu.
Agradecemos a gentileza e continuámos a visita. Encontrámos noutra sala um espólio de desenhos feitos por crianças, nos campos de concentração. As crianças sonham e brincam nos locais mais inóspitos, mais terríveis. Têm essa capacidade!
Aquela sala vazia, de paredes repletas de nomes, ficou na nossa memória para sempre. Hoje, quando se celebra o dia Internacional da Memória do Holocausto, não pude deixar de me lembrar da Sinagoga Pinkas.
Há em cada testemunho, em cada imagem, as respostas, milhentas respostas para as perguntas que continuamos a fazer, que não fizemos, que não nos atrevemos a fazer. A memória! A memória, que não nos falte!
N.B.